Caquexia e câncer

Por Heberton Medeiros

A caquexia relacionada ao câncer é uma síndrome multifatorial que ocorre entre 50 a 80 % dos pacientes com câncer avançado. Caracteriza-se por perda de tecido adiposo e muscular, associado a processo inflamatório sistêmico e consequente redução de massa corpórea. Essas alterações metabólicas levam a perda da funcionalidade e diminuição da qualidade de vida.

As causas também são variadas e resumidamente trata-se de uma redução da ingesta proteico-calórica associado a aumento do catabolismo. Essa diminuição da ingesta pode ocorrer devido a inúmeras situações que ocorrem no paciente com câncer como depressão, estresse, dor, efeitos adversos da quimioterapia e radioterapia, trauma cirúrgico, insegurança alimentar, baixa performance-status e ao próprio câncer.

No entanto, a caquexia não pode ser explicada unicamente pela diminuição da ingesta e inúmeros estudos experimentais tem demonstrado produção de citocinas pró-inflamatórias produzidas pelo próprio tumor e microambiente tumoral como Fator de Necrose Tumoral (FNT), Interleucina 1, 6 e 8 (IL-1, IL-6 e IL-8) e Interferon-gama (IFN-ɣ).  Essas substâncias inibem a diferenciação de miócitos e adipócitos e aumenta a resistência periférica a insulina o que leva a uma cascata de alterações metabólicas contribuindo para carcinogênese, manutenção do estado inflamatório e hipercatabolismo.

A caquexia do câncer poder ser dividida em pré-caquexia, que não tem consenso em sua definição, caquexia propriamente dita que leva em conta um  dos três critérios que se seguem: Perda de peso > que 5% em menos que seis meses, índice de massa-corpórea < 20 ou índice de sarcopenia em músculo apendicular (homens < 7.26 Kg/m2 e mulheres 5.45 Kg/m2) associados a perda de peso > 2%; e caquexia refratária que é um estado de catabolismo clínico resistente, baixa performance-status e expectativa de vida menor que 3 meses.

O primeiro passo no manejo dessa síndrome é uma otimização dos cuidados nutricionais com um profissional especializado em nutrição oncológica com orientação do suplemento/complemento alimentar ideal e controlar sintomaticamente náuseas, vômitos, plenitude pós-prandial, depressão, ansiedade, dor, insegurança alimentar entre outros.

Após esse primeiro passo otimizado podemos lançar mão das medidas medicamentosas, como por exemplo:

Estimulantes do apetite – Os mais clássicos deles são o acetato de megestrol e medroxiprogesterona, numa dose sugerida de 200-600 mg/dia, cujo mecanismo de ação aumenta a síntese, transporte e liberação do neuropeptídeo-Y e consequente diminuição das citocinas inflamatórias. Um dos principais cuidados no seu uso é a possibilidade de aumentar o risco de fenômenos tromboembólicos.

Corticóides em uma dose equivalente a 3-4 mg/dia de dexametasona aluns estudos demonstram benefícios semelhantes ao acetato de megestrol, no entanto, os efeitos adversos a longo prazo limitam o seu uso.

Esses são os medicamentos que temos as maiores evidências de uso nos quadros de caquexia relacionada ao câncer.

Há estudos ainda com talidomida, canabinóides, olanzapina, andrógenos, melatonina, entre outros, além de atividade física orientada por especialista, no entanto, porém, ainda necessitam de maiores evidências para serem recomendadas.

Aguardamos estudos futuros com intervenções mais eficazes e seguras para que possamos combater essa síndrome tão comum nos nossos pacientes com câncer e que limitam tanto sua qualidade de vida.

 

Referências bibliográficas:

Roeland EJ, Bohlke K, Baracos VE, et al. Management of cancer cachexia: Asco Guidiline. J Clin Oncol, 2020; 38: 2438-53.

Silva SP, Santos JMO, Costa e Silva, MP, et al. Cancer cachexia and its pathophysiology: links sarcopenia, anorexia and asthenia. Journal of cachexia, sarcopenia and muscle, 2020; 11: 619-35.

Stubbins R, Bernicker EH, Quigley EMM. Cancer cachexia: a multifactorial disease that needs a multimodal approach, Current Opinion in GastroenterologyMarch 2020 – Volume 36 – Issue 2 – p 141-146.

 

Author profile
Dr. Heberton Medeiros - Oncologia
Dr Heberton Medeiros
Médico Oncologista at Real Instituto de Oncologia

Graduação em Medicina: Universidade Federal do Rio Grande do Norte- UFRN.
Residência em Clínica Médica: Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.
Residência em Oncologia Clínica pelo AC Camargo Cancer Center, São Paulo-SP.
Mestre em Medicina Tropical pela UFPE.
Preceptor da Residência de Oncologia Clínica do Real Hospital Português.

 
× Olá, Como posso te ajudar?