Citorredução Secundária no Câncer de Ovário

Por: Andrezza Santos

O tratamento padrão do câncer de ovário localizado é citorredução cirúrgica seguido por quimioterapia adjuvante, na maioria dos casos. No entanto, a despeito do tratamento adequado em torno de 60% das pacientes apresentarão recidiva de doença.

Até o presente momento não há tratamento para a recidiva. Ao longo dos anos, a citorredução cirúrgica vem sendo discutida para pacientes com câncer de ovário recidivado, sensível a platina (recorrência ≥ 6 meses de tratamento), baseado em estudos não randomizados e na maioria dos casos retrospectivos que sugerem ganho em sobrevida global com tratamento cirúrgico para o subgrupo de pacientes que atingem ressecção completa.

Recentemente, dois estudos de fase III randomizados, o AGO DESKTOP III/ ENGOT ov20 e o GOG 0213 vem tentar elucidar essa questão.

Em 2017 o estudo AGO DESKTOP III/ ENGOT ov20 teve dados preliminares apresentados no congresso da Sociedade Americana de Oncologia (ASCO). Nesse estudo 408 pacientes com câncer de ovário recidivado sensível a platina e AGO SCORE positivo (citorredução primária R0, ECOG 0, < 500ml de ascite) foram randomizadas para citorredução secundária seguido por quimioterapia baseada em platina ou quimioterapia isolada. Houve benefício em sobrevida livre de progressão de 5,6 meses para o grupo de pacientes operados, com mediana de sobrevida livre de progressão de 19,6 meses versus 14 meses para os tratados apenas com quimioterapia (p<0,001). Em torno de 90% das pacientes fizeram quimioterapia baseada em platina nos dois grupos. Quando avaliados por volume de doença residual, esse benefício foi restrito a população submetida a ressecção cirúrgica completa, que alcançou sobrevida livre de progressão de 21 meses. Os pacientes com doença residual pós operatória não tiveram benefício com a cirurgia. É aguardado o dado de sobrevida global, objetivo primário do estudo.

No GOG 0213, Robert Coleman e colaboradores randomizaram 485 mulheres com neoplasia de ovário na primeira recidiva sensível a platina e com doença que se julgava ser passível de ressecção completa, para citorredução cirúrgica seguida por quimioterapia baseada em platina ou quimioterapia isolada. O objetivo primário do estudo era alcançar superioridade em sobrevida global na população operada. O estudo foi negativo, com mediana de sobrevida global 50,6 meses para as pacientes operadas e 64,7 meses para as tratadas apenas com quimioterapia (HR- 1,29 IC-0,97-1,72; p=0,08). Também não houve benefício em sobrevida livre de progressão, que foi 18,9 meses para as pacientes operadas e 16,2 meses para as não operadas (HR-0,82 IC-0,66-1,01).

Apesar de resultados discordantes, ambos os estudos randomizados citados têm populações semelhantes. Nos dois estudos, em torno de 67% das pacientes randomizadas para a cirurgia tiveram ressecção completa. Um dado que diverge entre eles é a utilização de bevacizumabe. O anticorpo monoclonal anti- VEGF foi utilizado em apenas 22% das pacientes do primeiro estudo e em 84% das pacientes do GOG 0213 levantando a hipótese de que um possível “efeito benéfico” adicional da terapia de manutenção possa ter suplantado os possíveis ganhos esperados com cirurgia.

Author profile
Dra. Andrezza Santos
Médico Oncologista at Real Instituto de Oncologia

Residência em oncologia Clinica no Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira IMIP, Mestrado em cuidados paliativos pelo IMIP, Preceptora das residências de oncologia clínica do IMIP, Hospital Universitário Osvaldo Cruz -HUOC e do Real Hospital Português

 
× Olá, Como posso te ajudar?