OPRA TRIAL: Terapia neoadjuvante total e preservação de órgão em câncer de reto

OPRA TRIAL: Terapia neoadjuvante total e preservação de órgão em câncer de reto

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Finalizando as novidades em Câncer de Reto de 2020, vamos comentar sobre o terceiro estudo que aborda tratamento neoadjuvante total.  Esse estudo se diferencia dos outros dois que já comentamos, uma vez que o objetivo principal é preservação de órgão em câncer de reto baixo. Até o presente momento, as estratégias de preservação de órgão são baseadas em estudos retrospectivos, com crescente interesse da comunidade por evidências que respaldem tal abordagem.  O prognóstico dos pacientes que atingem resposta patológica completa é excelente e não se sabe qual benefício de ressecção nesse grupo. Por outro lado, o grande desafio da preservação é avaliação de resposta completa clínica, que algumas vezes, não se correlaciona com a patológica, ficando tumor residual e risco de recidiva local.

O objetivo primário do estudo foi avaliar segurança da estratégia “watch and wait” e demonstrar que a realização de tratamento neoadjuvante total seguido de preservação de órgão em pacientes com resposta clínica completa é superior em  sobrevida livre de progressão (SLP) em 3 anos em relação aos pacientes que fazem tratamento padrão.

O estudo consistiu em tratamento neoadjuvante total – 2 opções de tratamento – TRATAMENTO 1 – estratégia de consolidação – quimiorradioterapia 5 semanas seguido de 4 meses de FOLFOX/CAPOX (CNCT) ou TRATAMENTO 2 – estratégia de indução – FOLFOX/ CAPOX (INCT) por 4 meses seguidos de quimiorradioterapia. Após 8-12 semanas de tratamento neoadjuvante, pacientes eram avaliados clinicamente com toque retal, com USG endoscópica (c/ ou s/ biópsia) e RM de pelve. Nos pacientes sem resposta clínica, estaria indicado cirurgia e naqueles com resposta clínica, entrariam em protocolo de “watch and wait”.  O estudo comparou os resultados dos braços investigados com os dados históricos de tratamento padrão de quimiorradioterapia, seguidos de cirurgia e tratamento adjuvante.  Para o controle histórico já se espera SLP de 75%. O esperado com os tratamentos em investigação era um aumento para 85% em SLP. Ainda se esperava 20% de taxa de manejo não operatório no grupo INCT x 35% no grupo CNCT. Os objetivos secundários foram avaliar qualidade de vida, efeitos adversos, adesão ao tratamento nos dois braços.

Critérios de inclusão – pacientes com Adenocarcinoma de Reto baixo EC II ou III.

O estudo alocou 354 pacientes dos quais 160 foram para o braço de INCT e 164 para CNCT. Nesses resultados preliminares, foram analisados dados de 148 pacientes do braço indução e 154 do braço consolidação. A maioria dos pacientes em ambos os braços eram tumores T3 (77%) com 70% linfonodo positivo.

Em relação ao tratamento, os pacientes no braço consolidação receberam dose maior de radioterapia. O tratamento de escolha como radiossensibilizador foi Capecitabina em 75% dos pacientes em ambos os braços com apenas 15% dos pacientes recebendo 5FU 225mg/m² infusão contínua diária. Em relação a quimioterapia, mais de 70% dos pacientes receberam FOLFOX.

Em relação a efeitos adversos, perto de 45% em ambos os grupos, apresentaram efeitos grau 3 ou mais.

Não houve diferença em SLP entre os grupos de terapia de indução e consolidação respectivamente – 78% e 77%, com resultados inferiores aos 85% esperados. Em relação à Sobrevida livre de metástases, também não houve diferença entre os grupos- 81% x 83%. Em relação a preservação de órgão em 3 anos, o braço de consolidação foi superior com 58% x 43% no braço indução.

O presente trabalho demonstrou uma taxa de preservação de reto de 50% com estratégia de preservação. Nos pacientes que realizaram estratégia de vigilância, não houve impacto em sobrevida livre de recorrência em 3 anos e sobrevida livre de metástases em relação ao controle histórico de tratamento padrão. O tratamento de quimiorradioterapia, seguido de quimioterapia de indução apresentou melhores resultados como estratégia de preservação de órgão.

REFERÊNCIAS:

https://meetinglibrary.asco.org/record/187194/abstract

ADENDO:

Para comentários sobre os estudos PRODIGE-23 e RAPIDO, acesse nosso site e se atualize sobre as novidades em Câncer de Reto – http://site.realinstitutodeoncologia.com.br/novidades-em-cancer-de-reto-pos-asco-2020-rapido-trial-e-prodige-23-trialns-dado-2-2/

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Dra Cecília Arraes
Médica Oncologista
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