Pacientes com câncer e a vacina contra o coronavírus

Pacientes com câncer e a vacina contra o coronavírus

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A pandemia da COVID-19 causada pelo Sars-cov2 continua tendo grande impacto em toda população, em especial idosos e pessoas com comorbidades, dentre elas o câncer. É com grande entusiasmo e esperança que estamos recebendo os resultados de segurança e eficácia sobre o desenvolvimento de vacinas contra esse vírus e os pacientes oncológicos têm dúvidas se poderão receber essas vacinas.

De modo geral, existem vacinas com vírus inativados ou fragmentos de vírus (exemplo:  hepatite B, gripe, HPV) e vacinas com vírus vivos atenuados (exemplo: poliomielite, febre amarela, varicela). As vacinas “ensinam” o sistema imunológico a reconhecer o vírus e produzir anticorpos contra ele para quando o organismo entrar novamente em contato com o vírus no futuro, consiga combater e debelá-lo rapidamente sem que a pessoa desenvolva a doença. Mais recentemente, foi desenvolvida uma vacina com uma tecnologia nova, que tem como foco fornecer não as proteínas já prontas, mas sim uma “receita” para a produção de proteínas: o RNA mensageiro. Esse tipo de vacina não possui nenhuma partícula viral ativa.

Pacientes com câncer em tratamento com quimioterapia podem ter redução na resposta imunológica e portanto, não é recomendada a vacinação com vírus vivo atenuado nessas pessoas, pois há risco de desenvolvimento da doença que a vacina deveria combater. Para vacinas com vírus inativado ou vacinas com fragmentos virais, não há esse risco de desenvolver a doença, apesar da eficácia da vacina poder ser menor em comparação com pessoas com sistema imunológico normal. Como o risco de desenvolver, por exemplo, uma gripe de forma mais grave ou hepatite B nesses pacientes é maior, recomenda-se a vacinação com vacinas de vírus inativos (como a vacina da gripe e a vacina contra a hepatite B) com segurança mesmo durante o tratamento quimioterápico.

Para a COVID-19, estão sendo fabricadas e estudadas mais de 200 vacinas, sendo as listadas abaixo as que estão em fases mais avançadas de aprovação:

  • Oxford / Astra zeneca – vacina com adenovírus atenuado com material genético do coronavírus. Feita em 2 doses com intervalo de 1 a 3 meses. Eficácia variou de 62% a 90% (dependendo da dose e intervalo estudados).
  • Sputnik V (russa) – vacina com vírus vivo atenuado (vetor viral adenovírus) com fragmentos do coronavírus. Feita em 2 doses com intervalo de 21 dias. Em torno de 90% de eficácia.
  • Coronavac – vacina com vírus morto/ inativado. Feita em 2 doses com intervalo de 4 semanas. Aguardando divulgação dos dados de eficácia.
  • Pfizer/ BioNTech – vacina com RNA mensageiro (fragmento do genoma do vírus, sem partículas virais ativas). Feita em 2 doses, com intervalo de 3 semanas. Eficácia em torno de 95%.
  • Laboratório Moderna – vacina com RNA mensageiro (fragmento do genoma do vírus, sem partículas virais ativas). Feita em 2 doses, com intervalo de 4 semanas. Eficácia acima de 90%.

Os estudos iniciais testando as vacinas contra a COVID-19 não incluíram pessoas que estão recebendo tratamento com drogas que suprimem o sistema imunológico, como quimioterapia. Isso ocorre porque os estudos precisavam primeiro avaliar se as vacinas funcionavam em pessoas com sistema imunológico saudável.

Dessa forma, a recomendação de vacinação para pacientes com câncer será feita com base no tipo de vacina e no tipo de tratamento que a pessoa esteja recebendo. Não temos ainda recomendações oficiais da Sociedade Brasileira de Oncologia, mas com base em outros tipos de vacina e de acordo com as recomedações da Sociedade Americana de Oncologia:

– Pacientes em tratamento com hormonioterapia: podem tomar qualquer tipo de vacina;

– Pacientes em tratamento com imunoterapia, terapia alvo ou término da quimioterapia há mais de 3 meses: podem tomar qualquer tipo de vacina;

– Pacientes em quimioterapia no momento ou término há menos de 3 meses: poderão receber apenas vacinas com vírus inativados, ou seja, todas as vacinas já atualmente comercializadas exceto as da Oxford / Astra Zeneca e a Sputnik V, que usam vetor com adenovírus atenuado.

– Pacientes pós transplante de medula óssea e pacientes que receberam anticorpo anti-CD20 necessitam de um tempo maior para recuperar o sistema imune e receber vacinas com vírus atenuado, que pode variar de 6 meses a 2 anos, sendo indicado para esses pacientes apenas vacinas com vírus inativados ou as vacinas com tecnologia de RNA mensageiro.

De toda forma, como não existem estudos da vacinação contra a COVID-19 em pacientes com câncer, nem sobre eficácia nem sobre o tempo de proteção, todos os pacientes mesmo após serem vacinados deverão manter as medidas sanitárias atuais de distanciamento social, uso de máscaras e lavagem de mãos.

Referências:

Dong Y, Dai T, Wei Y et al. A systematic review of SARS-CoV-2 vaccine candidates. Sig Transduct Target Ther 2020; 5:237. doi: 10.1038/s41392-020-00352-y

Polack FP, Thomas SJ, Kitchin N, et al. Safety and efficacy of the BNT162b2 Covid-19 vaccine. N Engl J Med 2020; Online ahead of print. doi: 10.1056/NEJMoa2034577

Jackson LA, Anderson EJ, Rouphael NJ, et al. An mRNA Vaccine against SARS-CoV-2 — Preliminary Report. N Engl J Med 2020; 383:1920-1931.  doi: 10.1056/NEJMoa2022483

Voysey M, Clemens SAC, Madhi SA, et al; Oxford COVID Vaccine Trial Group. Safety and efficacy of the ChAdOx1 nCoV-19 vaccine (AZD1222) against SARS-CoV-2: an interim analysis of four randomised controlled trials in Brazil, South Africa, and the UK. Lancet 2020; Online ahead of print. doi: 10.1016/S0140-6736(20)32661-1

Rubin EJ, Longo DL. SARS-CoV-2 Vaccination — An Ounce (Actually, Much Less) of Prevention. N Engl J Med 2020; Online ahead of print. doi: 10.1056/NEJMe2034717 Treatments and vaccines for COVID-19 | European Medicines Agency (19th December 2020, date last accessed).

https://www.asco.org/asco-coronavirus-resources/covid-19-patient-care-information/covid-19-vaccine-patients-cancer

 

Author profile
Dra. Carolina Matias
Médica Oncologista at Real Instituto de Oncologia

Graduação em Medicina: Universidade Federal de Pernambuco.
Residência em Clínica Médica: Hospital das Clínicas da UFPE.
Residência em Oncologia Clínica: AC Camargo Cancer Center, São Paulo-SP.
Mestre em Medicina Tropical pela UFPE.
Tutora de medicina da Faculdade Pernambucana de Saúde.
Preceptora da Residência de Oncologia Clínica do Real Hospital Português e do IMIP e da residência de clínica médica do Hospital Barão de Lucena

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