Série de Casos de Câncer de Pulmão tratados em um Centro privado de Oncologia em Recife / Pernambuco

Série de Casos de Câncer de Pulmão tratados em um Centro privado de Oncologia em Recife / Pernambuco

Comentado por: Dra Carolina Ferraz

 Mundialmente, o câncer de pulmão é a principal causa de morte por neoplasias em homens e a segunda maior causa em mulheres. No ano de 2012, foi responsável por aproximadamente 1,8 milhões de casos novos e 1,6 milhões de mortes neste mesmo ano pela doença.  O prognóstico dos pacientes varia de acordo com o estadiamento ao diagnóstico, subtipo histológico e perfil molecular. Em pacientes adequadamente selecionados, a terapia direcionada molecularmente e / ou a imunoterapia podem prolongar a sobrevivência sem comprometer a qualidade de vida, estratégias que vêm ganhando amplamente o cenário médico nos últimos anos.

O estudo em questão trata-se de uma análise observacional, descritiva, transversal, realizado através da análise de dados do prontuário eletrônico de pacientes com diagnóstico de neoplasia de pulmão em um serviço privado da cidade do Recife – PE, no período de março de 2012 a setembro de 2017.

Foram analisados dados de 96 pacientes com o diagnóstico de neoplasia de pulmão. Na amostra houve predomínio de pacientes do sexo masculino (57%), com idade mediana de 66 anos (min 36- máx. 92). A maioria dos pacientes eram casados (55%), se apresentaram ao diagnóstico com status performance (KPS) 0 e 1 (61%), tinham história de tabagismo prévia ou atual (67%) e carga tabágica média de 60 maços/ano (IC 95% –  44,93 – 76,97).

Quanto ao subtipo histológico, predominaram os pacientes do tipo não pequenas células (80%), sendo adenocarcinoma a principal histologia (66%), seguida por carcinoma epidermóide (14%), neoplasia de pulmão pequenas células (8%) e  tumor de histologia neuroendócrina (7%).

Os estágios mais avançados de doença (EC III – IV) foram mais frequentes ao diagnóstico representando 77% da amostra avaliada. E 36% afirmaram ter histórico familiar de neoplasia de qualquer sítio entre parentes de primeiro e segundo grau.

Quanto às comorbidades mais frequentes entre os pacientes, hipertensão arterial sistêmica (HAS) foi a mais prevalente (56%), seguida por diabetes melitus (DM) (24%), doença cardiovascular /Infarto agudo do miocárdio (DAC/IAM) (18%) e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) (15%).

No grupo de pacientes estádio I e II 77% tinham status performance (PS) 0,1 e 23% eram performance status 2,3 ao diagnóstico, já no estádio clínico III e IV 55% eram PS 0,1 e 45% eram PS 2,3.

Entre o subtipo adenocarcinoma estágio IV o perfil molecular foi avaliado em 81% dos pacientes da amostra, destes 62% eram não mutados, 16% eram EGFR mutado e 3% eram ALK mutado.

Entre os pacientes mutados houve maior frequência do sexo feminino (54%), a idade média dos pacientes foi 61,54 anos (IC 95% 53,5- 69,58) e a maioria deles eram não fumantes (67%).

Em 88% dos casos avaliados o diagnóstico histológico foi obtido através de biópsia pulmonar. Quanto ao tipo de procedimento utilizado para biópsia em 32% dos casos a remoção das amostras para fins diagnósticos foi obtida por técnicas realizadas pela cirurgia torácica, 30% através de biópsia guiada por tomografia, 27% por broncoscopia, 4% através de ressecção de lesões do sistema nervoso central e em 4% por técnicas de biópsia óssea.

Os principais sítios de metástases encontrados ao diagnóstico foram ossos, sistema nervoso central, linfonodos, fígado, pleura e adrenal.

Após o diagnóstico 45% dos pacientes receberam quimioterapia sistêmica como modalidade terapêutica inicial. Cirurgia foi realizada em 23 % dos pacientes e 4% realizaram quimioterapia adjuvante após ressecção. 15% dos pacientes foram conduzidos com medidas de suporte exclusivo já ao diagnóstico.

Nesta amostra avaliada apenas 16% dos pacientes receberam tratamento com imunoterapia em alguma linha de tratamento. Vale salientar que os dados deste estudo foram recrutados em um período inicial da chegada das opções de imunoterapia no cenário de terapias oncológicas o que explica o baixo número de registros.

5% da amostra foi submetido a 1 ou 2 linhas de tratamento, 26% dos pacientes não receberam tratamento sistêmico em nenhum momento do seguimento e 14% da amostra recebeu mais de 3 linhas de tratamento.

Entre os pacientes com doença localizada ao diagnóstico, estádio I, II e III, 59% progrediram após tratamento inicial ao longo do período de avaliação do estudo. Entre os pacientes que progrediram 63% pertenciam ao estádio III, 29% ao estádio I e 8% ao estádio II.

A sobrevida média geral dos pacientes avaliados foi de 15,21 meses, com mediana de 9 meses (mín. 1 mês – máx. 82 meses).

Para o subtipo adenocarcinoma a sobrevida mediana geral foi de 12 meses. Já entre os subtipos carcinoma epidermóide e pequenas células a sobrevida mediana atingiu respectivamente os valores de 03 meses (média de 15,31) e 4,5 (média de 4,5) meses.

Entre os pacientes com história de tabagismo a mediana de sobrevida foi de 08 meses, e para os não tabagistas, mediana de sobrevida de 12 meses.

Os pacientes que tinham adenocarcinoma com perfil molecular (ALK/EGFR) mutado atingiram sobrevida mediana de 16,5 meses, enquanto a sobrevida mediana dos não mutados alcançou o valor de 11 meses. As estimativas de sobrevida geral dos pacientes em 1 ano, 3 anos e 5 anos, foram respectivamente, 42%, 14% e 3%.

Após avaliação descritiva das características e dados de sobrevida dos pacientes, foram realizadas comparações de sobrevida por faixa etária, gênero, status performance (PS), estadiamento, hábitos tabágicos, presença de perfil molecular mutado, número de linhas de tratamento e relação neutrófilos/linfócitos ao diagnóstico, afim de avaliar quais destas variáveis influenciaram como prognóstico de sobrevida na amostra do estudo.

Na avaliação final houve diferença estatisticamente significativa de sobrevida mediana entre pacientes por estratificação de faixa etária (idade < 70 anos e ≥ 70 anos, p: 0,0367), status performance (PS 0, 1 vs. 2, 3 , p < 0.0001) e avaliação comparativa do número de linhas de tratamento recebidos (pacientes que fizeram 0 ou 1 linha de tratamento medicamentoso sistêmico em relação aos pacientes que receberam 2 ou mais linhas ao longo do seguimento do estudo, p: 0.0002).

A relação neutrófilos/linfócitos também mostrou diferença estatisticamente significativa na sobrevida dos indivíduos da amostra (NRL < 3 vs. NRL ≥ 3). Os pacientes com relação neutrófilos/linfócitos < 3 ao diagnóstico apresentaram melhor prognóstico de sobrevida (p: 0,0003).

Esse levantamento foi fundamental na análise crítica de vida real das conduções de casos do serviço, conduzindo a aplicação das informações para aperfeiçoamento das práticas hospitalares e médicas do serviço estudado, devendo estimular a prática futura de coletas de dados neste perfil para o conhecimento detalhado da assistência oncológica prestada.

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