Vacinação contra o HPV na América Latina

Artigo do Educational Book do congresso americano de Oncologia Clínica de 2019 escrito pela Dra. Angelica Nogueira-Rodrigues e comentado pela Dra. Carolina Matias

A prevalência da infecção pelo Papilomavírus humano (HPV) é 2 vezes superior na América Latina quando comparada ao restante do mundo e é considerada a principal causa de câncer nesta região, devido principalmente à incidência de câncer de colo uterino. Como o carcinoma de colo uterino afeta principalmente mulheres jovens, é considerada hoje a principal causa de anos de vida perdidos relacionada ao câncer nos países em desenvolvimento e sua incidência continua em crescimento, assim como outros tumores associados ao HPV (orofaringe e canal anal).

A eficácia da vacina na prevenção dos tumores associados ao HPV já foi demonstrada em diversos estudos e apesar da América Latina ter uma história de alta cobertura vacinal com programas de imunização, a aderência da população à vacinação encontra-se abaixo do esperado por alguns fatores como necessidade de mais de 1 dose da vacina, desconhecimento da eficácia da vacina, barreiras culturais por ser uma doença sexualmente transmissível, recomendações insuficientes dos governos e estratégias inadequadas de implementação.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), até março de 2017, 71 países (37%) tinham programas nacionais de imunização implementados para meninas de 11 anos e apenas 11 países (6%) tinham programas também para meninos.

Na América Latina, Panamá e México foram os primeiros países a implementar um programa de vacinação. No Panamá o programa foi estabelecido em 2008. Em 2009, 89% das meninas haviam recebido 1 dose porém apenas 46% receberam as 3 doses recomendadas.

Após a introdução da vacinação no Brasil em 2014, a OMS declarou que 80% das adolescentes nas Américas teriam disponibilidade da vacina, porém infelizmente não quer dizer que 80% das meninas estão sendo vacinadas.

Uma situação alarmante na América Latina é a redução até da primeira dose da vacina nos anos subsequentes à implementação do programa de vacinação. No Brasil, de acordo com o ministério da saúde, a cobertura vacinal reduziu de 92% em 2014 para 69,5% em 2015, uma dramática redução de 23% em 1 ano. Uma tendência similar foi observada no México e uma redução ainda maior foi observada na Colômbia.

No Brasil, os estados mais pobres do Nordeste atualmente mostram uma cobertura de apenas 21,5% da população alvo. Apenas 4% das cidades brasileiras tem 80% ou mais da população alvo vacinada. Em 2017, 79% das meninas entre 9 e 14 anos receberam a primeira dose da vacina e 48% receberam a segunda dose. Entre os meninos de 12 a 13 anos apenas 43% receberam a primeira dose.

Apesar de ser considerada um dos mais importantes avanços na saúde da mulher, a vacinação contra o HPV vem enfrentando barreiras na sua implementação na América Latina e deve ser considerado um grande alarme para a OMS e uma necessidade urgente de vigilância e implementação de novas estratégias pelos governos desses países.

Author profile
Dra. Carolina Matias
Médica Oncologista at Real Instituto de Oncologia

Graduação em Medicina: Universidade Federal de Pernambuco.
Residência em Clínica Médica: Hospital das Clínicas da UFPE.
Residência em Oncologia Clínica: AC Camargo Cancer Center, São Paulo-SP.
Mestre em Medicina Tropical pela UFPE.
Tutora de medicina da Faculdade Pernambucana de Saúde.
Preceptora da Residência de Oncologia Clínica do Real Hospital Português e do IMIP e da residência de clínica médica do Hospital Barão de Lucena

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